A oposição em crianças
- Renata Begosso

- 19 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de mar.

Aprender a dizer “não” é uma importante aquisição na infância. Representa colocar limites, aprender o que gosta e o que não gosta, se manifestar.
Pensemos em exemplos: se seu/a filho/a está brincando na praça e um desconhecido se aproxima, ele/a precisa saber dizer “não” e se afastar.
Ou ainda, em uma segunda hipótese, todos os dias, as opções de lanche da tarde na casa de vocês são maçã e banana. Seu filho, porém, não gosta de banana, só de maçã. Mas, mesmo assim, ele come algo que não gosta porque você oferece. Nesse cenário, observamos uma dificuldade de dizer algo aparentemente simples como "não gosto de maçã, prefiro comer a banana", para alguém de confiança. Isso acende um sinal de alerta para como essa criança pode estar passando por cima de si mesma. Se algo assim acontece em casa com alguém de confiança, precisamos estar atentos em como ela lida com confrontos e discordâncias em outros locais.
Se seu filho é sempre indiferente, não questiona nada, esse pode ser um indicativo de sofrimento. É importante que ele consiga dizer coisas como “gosto mais dessa brincadeira do que daquela”, ou “isso me deixa desconfortável”: são sinais positivos do desenvolvimento psíquico.
Por que, então, a oposição é vista como algo ruim?

Para responder a essa pergunta, é importante pensar o que se espera das crianças hoje em dia.
Em uma sociedade com pais sobrecarregados e grandes jornadas de trabalho, vemos normas sociais que esperam que o critério de normalidade seja crianças obedientes e passivas, o que não condiz com a natureza infantil.
Na literatura médica, a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM V) apresenta uma categoria chamada “Transtornos disruptivos, do controle de impulsos e da conduta”. Nela, estão classificados alguns transtornos muito associados a crianças em idade escolar, como o Transtorno Opositor Desafiador (TOD).
O Manual define os “Transtornos disruptivos, do controle de impulsos e da conduta” da seguinte forma: “condições que envolvem problemas de autocontrole de emoções e de comportamentos [...] esses problemas se manifestam em comportamentos que violam os direitos dos outros (p. ex., agressão, destruição de propriedade) e/ou colocam o indivíduo em conflito significativo com normas sociais ou figuras de autoridade”.
Olhando para essa definição, vemos que o Manual deixa de lado o sofrimento do sujeito e coloca em foco comportamentos desviantes, que supostamente violam direitos e normas sociais, desafiam leis e autoridades.
Se seu filho possui um diagnóstico de TOD, meu papel aqui não é questionar o diagnóstico e nem desmerecer a trajetória de vocês.
Minha proposta é apenas que passemos a olhar com uma nova lente: o que será que aconteceu e está acontecendo com essa criança para que esse cenário tenha se delineado? Por que essa criança está agindo dessa forma? Será que ela está em sofrimento? Será que ela está querendo nos dizer algo?
Como é estar diante de uma “criança opositora”?

Certamente, um desafio. O que assola muitos pais e educadores é a sensação de um impossível de lidar: a criança parece não reconhecer a autoridade e uma desordem toma conta.
Essa criança, na verdade, se encontra presa em uma forma de existir no mundo: negando tudo aquilo que lhe é oferecido. Esse modo de funcionar é sinal de sofrimento profundo por parte da criança.
Essas crianças precisam de cuidados. Através da psicoterapia, é possível acolher a criança, encontrando novas formas para que ela se relacione com o mundo, assim como acolher a família em sofrimento.
Também não se trata de negar diagnósticos. Em muitos casos, a ausência deles faz com que a comunidade em volta da criança não se atente ao que ela traz como questão. Trata-se de ter cautela com diagnósticos precoces que apontam para condutas supostamente patológicas, como se tratasse de um desvio de caráter a ser corrigido. Quando, na verdade, estamos falando de pequenos sujeitos em sofrimento.
Diagnósticos não são sinônimos de destino. Se você conhece uma criança com um diagnóstico, ou que não tem um diagnóstico mas se identificou com a leitura, saiba que é possível sim obter ajuda através da psicoterapia.
Se tem alguma dúvida sobre como é o meu trabalho ou ainda sobre como posso te auxiliar através da psicoterapia, entre em contato.



